Ir para:    página inicial    |    conteúdo página    |    pesquisa 

Os Brinquedos do João

Em casa do João Miguel havia uma grande algazarra.

- Eu hoje não brinco com o João!...-dizia o palhaço Adolfo.

- Nós também não!...-disseram os outros brinquedos.

Todos os brinquedos iam explicando porque não queriam brincar mais.

 - O João deita-me ao chão sempre com brusquidão e agressividade e não se preocupa com as minhas pernas ou a minha cabeça! Nem me pergunta como estou! Isto é demais! Ele é um menino muito mau!- dizia o palhaço Adolfo.

- A mim, morde-me toda e deixa-se sempre toda lambuzada! – dizia a chave de plástico.

- Ele puxa-se os cabelos e dá-me pontapés em todo o corpo! – dizia o cãozinho de borracha .

- Pois é! Isto não pode continuar! E se fôssemos amanhã procurar outro menino para brincarmos? E desta vez…um menino bom e meiguinho! O que acham? – disse a chave de plástico.

- Está bem! Está combinado! Assim que o menino João sair…nós saímos também! – disseram os outros brinquedos em uníssono.

Na manhã seguinte, depois de o menino João ir para a escola, os brinquedos saíram à procura de outro menino…Andaram, andaram e não conseguiram encontrara nenhum menino para brincar.

Os brinquedos estavam muito cansados e tristes e resolveram parar e sentar-se no chão. Por fim…um deles disse:

- O menino João, por vezes, dá-me muitos beijinhos - disse o bebé chorão

- Ele, ás vezes, aconchegava-me ao seu corpo – dizia o cãozinho de borracha.

- Ele costumava dar-me doces!....-disse o palhaço Adolfo.

Entretanto….próximo do local onde estavam a conversar, morava a Dona Fadinha. Ela ouviu a conversa dos brinquedos e pensou:

- Que grandes patetas! Pois agora vou brincar um bocadinho!....~

Quando apareceu a Dona fadinha, os brinquedos estavam em silêncio. Ninguém dizia coisa alguma. Apenas pensavam…pensavam no menino João!...

- Olá brinquedos! – disse a Dona fadinha com uma vozinha muito suave ---Não digam nada! Eu sei o que os preocupa! Deixem-me pensar!...Hum! Hum! …Ah…já sei! Vocês procuram um menino bom e meiguinho para brincar convosco!...

Os brinquedos olharam uns para os outros e responderam:

- Sim!!!!

- E quem é a senhora? – perguntou então o palhaço Adolfo.

-Eu? …. Bom, eu sou a Dona fadinha!...A tal que faz sorrir os brinquedos! - disse

Vendo o olhar estupefacto dos brinquedos, disse então:

- Mas, digam-me, é a primeira vez que procuram um menino para brincar com vocês?

- Não!! Nós já brincámos com o Menino João…mas ele era uma menino muito mau, muito mau! – respondeu a chave de plástico .

- Ah, então vocês querem um menino para brincar…que não seja mau, não é? – perguntou a dona fadinha .

- Sim!! Um menino que não nos faça mal; que nos dê doces; que brinque connosco! Enfim, que seja um menino melhor do que o menino João – disse o palhaço Adolfo.

- Que tolinhos eles são----pensou a dona fadinha e disse-lhes então:

- Então está bem! Eu conheço uma maneira de saber onde está um menino bom e meiguinho….mas vocês terão que estar muito sossegados e em silêncio enquanto eu pesquiso…

- Sim, Sim!!! Nós ficamos muito caladinhos! ---disseram todos os brinquedos!

A dona fadinha colocou um espelho numa rocha ……. e todos os brinquedos a rodearam , em silêncio…..

- ABA DID, KABA MIA…….ABA DID, KABA MIA…faz aparecer um menino bom e meiguinho! ---disse em tom muito alto a dona fadinha.

Fez-se um silêncio enorme durante alguns instantes….

- ABA DID, KABA MIA….ABA DID, KABA MIA….voltou a dizer a dona fadinha...

Novamente silêncio….Por fim, ouviu-se uma gargalhada.

- Ah, ah,ah….Uh,uh….Ah,ah,ah….-ria o bebé chorão…-Então vocês pensavam que ia aparecer alguém?! – Ah, ah… grandes bobos!

- Bebé chorão, tu é que és um tolinho!...Então pensas que não vai aparecer ninguém?! – Pois estás muito enganado! E vou já demonstrar-te isso! Está muito caladinho e já vais ver! Psiuuu! Todos em silêncio! – gritou a dona fadinha .

Todos os brinquedos voltaram a rodear a dona fadinha. Ficou um silêncio….

- ABA DID…KABA MIA…-faz aparecer um menino bom!...

Esperaram durante alguns instantes……e nada!

- Ah, ah, ah! Eu não disse? Eu não disse? Então vocês pensavam que iria aparecer alguém? …dizia, rindo, o bebé chorão …

- Pois claro! – concordou o palhaço Adolfo..- Então vocês não vêem que a dona fadinha é um brinquedo como nós…e que isto é apenas uma brincadeira dela? Ela está a brincar connosco!...

A dona fadinha tinha estado muito concentrada…enquanto os brinquedos discutiam e riam…De repente, disse:

- Ah, como eu sou esquecida! É que o desejo só se concretiza se eu tiver duas borboletas na cabeça! Sim, é isso que falta! Pois é , brinquedos, se querem encontrar um menino bom e meiguinho…terão que ir procurar as duas borboletas ! E têm que ser borboletas verdes! …disse a dona fadinha, muito apressadamente!...

- Mas….diga-me uma coisa, dona fadinha! A dona fadinha tem mesmo a certeza de que isto não é uma brincadeira? No fim de contas, a fadinha é uma brinquedo exactamente como nós! – perguntou o palhaço Adolfo.

- Claro que não é uma brincadeira! Então vocês pensam que são apenas brinquedos, é? Não e não! Vocês são muito mais do que simples brinquedos! Pois, pois! Ora, deixem-me perguntar-vos uma coisa! Vocês já viram mais alguns brinquedos a falar? Claro que não viram! Mas vocês falam! Logo, vocês são os brinquedos que falam! – disse a dona fadinha.

- Isso deve ser verdade, sim senhora! E agora me lembro! A minha avozinha dizia-me sempre que os outros cãezinhos não falavam! Parece que só diziam: Au! Au! Au! – disse o cãozinho de borracha.

- Pois é! A minha mamã também dizia que os outros bebés só diziam: Buá! Buá! Buá! – disse o bebé chorão.

- Eu não percebo nada do que vocês dizem, mas devem ter razão! Ora vamos lá! Vá lá! Vamos procurar as borboletas verdes antes que se faça tarde!...- disse o palhaço Adolfo.

Todos os brinquedos decidiram então ir procurar as borboletas verdes.

Tinham decorrido alguns minutos quando ….

- Apanhei! Apanhei!...Ah! Ah! Andem ver, andem ver!...disse o bebé chorão.

Todos os brinquedos acorreram ao local…

- Ah, é tão pequenina, coitadinha! – disse a chave de plástico

- Sim! É muito pequenina! Nós não podemos fazer uma coisa destas! Não, Não…não a podemos separar da mãe! Coitadinha, está a tremelicar….E depois, como é que se alimentava? Como é que ela fazia os trabalhos da escola e aprendia a voar? Não, não…temos que a deixar ir embora….para poder crescer e brincar…O que é que vocês dizem? – perguntou o palhaço Adolfo.

- Eu também concordo! – disse o cãozinho de borracha .

- E nós também! – disseram em coro os restantes brinquedos .

- Afinal, tão pequenina, com certeza que não serviria para o que a dona fadinha queria. – disse o bebé chorão.

Voa, pequenina, voa! - disseram todos ao mesmo tempo .

E recomeçaram a procurar novamente as borboletas verdes.

Daí a pouco…. o palhaço Adolfo aproximou-se do bebé chorão…com uma borboleta vermelha na rede…..

- Apanhei! Estás a ver? Tinha que ser eu a apanhar uma borboleta verde! – disse o palhaço.

- Mas….isso é uma borboleta azul! Tu apanhaste uma borboleta azul! – disse o bebé chorão.

- Estás enganado! Ah, Ah, ….Então eu não sei distinguir as cores?! Meu grande maroto! – disse o palhaço Adolfo .

- Mas estás errado! Essa cor é azul! E parece-me que o azul nuca foi verde! E, para tiramos as duvidas, vamos perguntar à chave de plástico! – disse o bebé chorão.

- Pois então vamos lá! E quanto mais depressa melhor! Esta é boa! – disse o palhaço Adolfo .

Os dois brinquedos foram perguntar à chave de plástico...

- Ó menina chave de plástico…pode tirar-nos umas dúvidas? – perguntou o bebé chorão

- Com certeza! Eu adoro sempre tirar dúvidas aos outros brinquedos – disse a chave de plástico, com ar importante!

Que presumida! Uma convencida é que ela é! – pensou o palhaço Adolfo

- Pois bem! Nós queremos saber qual é a cor desta borboleta. Qual é? – perguntou o bebé chorão .

- Ah, apanharam uma borboleta! Mas essa borboleta não serve para a dona fadinha! – disse a chave de plástico.

- Eu não disse, eu não disse? – rejubilava o bebé chorão.

- Pois claro! Essa borboleta é castanha! – disse a chave de plástico .

- Castanha!!!!!! – disseram o bebé chorão e o palhaço Adolfo ao mesmo tempo.

- Ah, Ah, Ah….pensavam que era de outra cor? Então não foram à escola aprender as cores? – comentou a chave de plástico

- A menina chave de plástico é que não foi à escola! Então a borboleta é castanha?! Eu começo a não perceber nada! Eu desconfio é de uma coisa. Sabem o que é? – perguntou o bebé chorão.

- Não! – responderam os outros dois.

- Pois eu desconfio que nenhum de nós sabe as cores! O palhaço Adolfo diz que é verde; a chave de plástico diz que é castanha e eu digo que é azul. O melhor é deixámo-la ir embora! Imaginem o que diria a dona fadinha quando soubesse que não sabíamos as cores! Estão a perceber? – disse o bebé chorão.

- Sim! Sim! – responderam o palhaço Adolfo e a chave de plástico .

- Pois então aí vai! Voa, borboleta sem cor! Ah,Ah,Ah…daqui a pouco ainda aparecia alguém a dizer que era uma borboleta preta! – disse o bebé chorão…

Entretanto …. apareceu o cãozinho de borracha….e, ao ver as borboletas que os outros brinquedos libertaram, desatou a gritar:

- Olhem…uma borboleta preta! Olhem….Vocês viram? Vocês viram?...

Os outros brinquedos desataram a rir….

- Eu não dizia?! – comentou o bebé chorão…

- Mas….se nós não conhecemos as cores, como é que vamos procurar as borboletas verdes? – dizia o palhaço Adolfo.

- Pois é! Ah, agora me lembro! Sempre me disseram que eu tinha olhos verdes! Portanto …basta procurar uma borboleta da cor dos meus olhos! – disse o bebé chorão.

- Os teus olhos são verdes? Deixa ver….Ah, então a cor verde é essa? – perguntou o palhaço Adolfo ….Bom, então vamos procurar uma borboleta que seja da cor dos olhos do bebé chorão!....A borboleta que apanhei…afinal era verde!

Começaram novamente a procurar borboletas, mas não conseguiram encontrar nenhuma….

Entretanto…começou a chover…

- Mas…caiu-me uma coisa em cima! – disse o cãozinho de borracha – Outra! …Ah, está a chover!...

-Ai! Acudam! Ajudem-me! Ai, eu molho-me toda! Acudam! – dizia a chave de plástico

- Vamos todos para baixo daquela árvore! Vocês estão a ver qual é? Venham depressa! – disse o palhaço Adolfo. E começou a correr naquela direcção.

Quando lá chegaram…estavam muito cansados e as roupas estavam todas molhadas.

- UF! Ainda bem que estava aqui esta árvore! – disse o bebé chorão…Imaginem se não tivéssemos um sítio para nos abrigarmos.

- Muita sorte mesmo!! – concordaram os outros .

- Mas…olhem! Estão a ver ali? Está ali uma borboleta à chuva. Coitada! Deve estar muito ferida! Temos que ir buscá-la antes que ela fique doente! Coitada! Vamos! – disse o palhaço Adolfo.

- Esperem! Atchim! Atchim! Eu estou muito constipado! Acthim! Eu não posso ir! Acthim! – dizia o bebé chorão.

- Eu também não! Não vêem que posso desmanchar o penteado! E custou-me muito dinheiro! – disse a chave de plástico…

- Então está bem! Vocês não querem ir, eu vou sozinho! Afinal basta uma pessoa , não é? – disse o palhaço Adolfo .

O palhaço foi a correr buscar a borboleta ferida…e daí a pouco estava outra vez debaixo da árvore com a borboleta deitada nas palmas das suas mãos…

- Coitada! Atchim! Está toda molhada! Atchim! Temos que a limpar ! Atchim! Atchim! – disse o bebé chorão

- Coitadinha! temos que ter muito cuidado com ela! É tão delicada! – disse a chave de plástico

- Mas…agora estou a ver…ela é da cor dos olhos do bebé chorão! – disse o palhaço Adolfo .

- É? Deixa ver! Pois é! – disse a chave de plástico

- Então é uma borboleta verde!!! - assentou o cãozinho de borracha.

- Atchim! Mas está toda molhada e não consegue voar! Atchim! Atchim! Coitadinha! Vamos ajudá-la! Atchim! – disse o bebé chorão.

- Mas…o que é que vamos fazer então? Nós nem sabemos nada de borboletas! Como é que a vamos ajudar? – disse o palhaço Adolfo.

- Pois é! Atchim! Mas ela deve querer alguma coisa! Talvez tenha fome! Atchim! Atchim! Mas….o que é que ela comerá? – perguntou o bebé chorão.

- Não sei! Mas deve ser qualquer coisa nas flores! Elas andam sempre nas flores! O que é que vocês dizem? – perguntou a chave de plástico.

- Eu acho uma boa ideia! Mas agora está a chover! – disse o cãozinho de borracha .

- Então…enquanto não deixa de chover, eu vou secá-la com o calor das minhas mãos! – disse o palhaço Adolfo.

- Atchim, acho bem! Vamos esperar que deixe de chover! Atchim! – disse o bebé chorão…

Daí a pouco deixou de chover.

- Já não chove! Agora já podemos ver se ela gosta de flores! – disse o palhaço Adolfo.

- Vamos! Vamos! – disseram os outros.

Colocaram a borboleta numa flor e ficaram à espera. Daí a alguns instantes, a borboleta mexeu-se e……de repente, começou a voar!...

- Já não está doente! Ela já não está doente! – disse o cãozinho de borracha .

Todos gritaram vivas à borboleta.

- Mas ela não pode fugir! Atchim! Anda cá borboleta! Nós precisamos de ti! Anda cá! Atchim! – disse o bebé chorão.

Mas a borboleta…..já estava muito longe e não ouviu o que eles disseram.

- Ora! Afinal era só uma borboleta …e doente! E nós precisávamos de duas, não é? Ter uma ou não ter nenhuma é a mesma coisa! – disse o palhaço Adolfo

Os outros brinquedos concordaram …e todos gritaram:

- Adeus borboleta! Boas melhoras!

Desapontados….por não levarem as duas borboletas verdes….resolveram ir ter com a dona fadinha….

- Quando a dona fadinha souber o que nos aconteceu…ela vai compreender! Atchim, Atchim! Vamos depressa! Ela já deve ter pensado noutro método para encontrarmos um menino bom e meiguinho! Atchim..- disse o bebé chorão.

Chegaram ao local onde tinham deixado a dona fadinha e não estava ninguém…

- Não está cá ninguém! – disse o cãozinho de borracha – Dona Fadinha! Dona fadinha!

- Pois não! Dona fadinha!................ninguém responde. Deve estar a brincar connosco! – exclamou o palhaço Adolfo.

- Esperem! Está aqui um bilhete! Deve ser da dona fadinha…mas eu não sei ler! – disse o cãozinho de borracha.

- Dá cá! Dá cá! Eu já fui cinco dias à escola! já sei ler algumas letras! Atchim! – disse o bebé chorão.

- Toma! Lê alto e bem devagarinho! – afirmou o cãozinho de borracha .

- A…os brin…que..dos! Ah, somos nós! Este bilhete é para nós! Ouçam! Vo…cês são to..dos uns to..li..nhos! Nós uns tolinhos? Ah, que descaramento! Pssiuu! Ouçam mais! Po..is são! Se não…olh..em: Quan..tos são do..is mais do..is? Ah, ah…Esta é boa! Quantos são dois mais dois? Que pergunta tão pateta! – exclamava o bebé chorão!

- Quantos são? – perguntaram os outros brinquedos.

- Então vocês não sabem? Não sabem quantos são dois mais dois? Atchimm!

- Nós não sabemos!!- olhando uns para os outros.

- Deixem-me ver então! hummm…Eu já soube, mas não me lembro agora! Mas também isso não interessa agora. Toda a gente sabe! Vamos continuar! Atenção! Ouçam! Atchimmm! Pssiuu…Atchimm, Atchimmm- disse o bebé chorão.

- Es..tão a ver? Vo..cês não sa..bem! Há aqui uma palavra que eu não sei ler. Mas também não deve interessar! E q..uem não sa..be  com..tar, não sa..be fa..zer na..da. Esta agora! Vocês estão a ouvir isto! Vo..cês qu..erem um me..ni..no bom, não é? Pois o meu es..pe..lho diz que to..dos os me..ni..nos são bons se os sou..be..rem com.pre..ender! Gostei desta! Vocês não gostaram?

- Nós também gostámos, mas não percebemos-comentaram.

- Isso não interessa! Atenção! Pssiuu! Se vo..cês qu..erem um me..ni..no bom, en..tão vão ter com o João Mi..guel e ten..tem per..ce..ber por..que é que ele é ass..im! Vão ver que é um me..ni..no bom! Atchim!

- Vocês ouviram? Afinal o menino João é um menino bom! – disse o cãozinho de borracha.

- Pois é! Nós é que estamos errados! Vamos depressa para casa, antes que o menino João se levante e vá para a escola – disse o palhaço Adolfo.

- Então vamos! E depressa! – disseram os outros.

- Atchimm! Atchimm.

 

Voltar